Editorial

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Autor(a): Biodiversidade
Fecha: 17 enero 2014
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Biodiversidade | 17 enero 2014 | Biodiversidade 78 / 2013-10

A foto da capa mostra um menino que se pendura nos galhos de uma árvore à margem de um rio: o Usumacinta (o “bugio”). Apesar de brincar feliz, porque brincar resolve tudo, pelo menos por instantes, ele (como muitos outros de sua família e amigos) espera atravessar e adentrar em terri­tório mexicano para subir o máximo possível em seu caminho rumo ao sonho do dinheiro como solução. E o dinheiro resolve quando as pessoas se veem despojadas de seus ambientes e meios de subsistência com os quais garantiam a vida no cuidado e nas certezas compartilhadas.

Mas as soluções que o dinheiro propõe nos afastam das fontes de nosso ser comum, nunca nos aproximam. O dinheiro nos propõe abandonar a terra, o lugar onde nascemos. Propõe-nos deixar de plantar nossas sementes nativas, ancestrais, que custodiamos e intercambiamos em nossos canais de confiança por tantos, tantos séculos. Propõe-nos que, em vez de cultivar a terra ou produzir nossos alimentos, busquemos algum emprego que nos permita contar com dinheiro para comprar comida, para ter forças e bom sono para voltar a trabalhar para ter dinheiro e assim comprar comida, numa conta infinita que nos prende para sempre porque é preciso comprar comida.

Talvez uma das maiores tristezas dos velhos de muitas comunidades seja que seus jovens tenham deixado de acreditar que é possível vencer na vida semeando, colhendo, caçando, tendo animais de criação, pescando e pastoreando.

Esta é a maior afronta que podemos mencionar: há uma guerra contra a subsistência das comunidades e dos povos, uma tentativa de impedir que as pessoas possam resolver por conta própria sua alimentação, a de sua família e de sua comunidade.

Mas, na verdade, o mundo ainda é alimentado por todos aqueles, todas aquelas que, em suas comunidades, continuam empenhados e empenhadas em defender o que poderíamos chamar de um âmbito de cuidados minuciosos, de responsabilidades detalhadas, de sonhos compartilhados que se reforçam produzindo nossos pró­prios alimentos e mantendo as condições dessa produção o mais perma­nentes (hoje diríamos sustentáveis) possível.

Sem esse entendimento, tudo parece coisificável, da terra à semente, inclusive os saberes, que se tornam mercadoria ao submeter-se à validação e certificação propostas pela maioria dos sistemas educacionais formais.

Sem esse entendimento, as pessoas não estabelecem a busca da autonomia dos povos, as lutas de resistência contra os megaprojetos, a defesa dos territórios, da água, das sementes nativas. As lutas para que não fraturem o território com profundas e expansivas sopas químicas injetadas em alta pressão apenas para obter gás e lucros.

Vamos começar a olhar contemplar este número de Biodiversidade, e saibam que queremos que o espelho seja mútuo. Queremos nos refletir em vocês, e que suas lutas sejam refletidas aqui.

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