Uma panorâmica e muitas vistas: Histórias de leite

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Autor(a): GRAIN
Fecha: 20 diciembre 2011
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GRAIN | 20 diciembre 2011 | Biodiversidade - Oct 2011

Nesta seção complementamos o significativo documento “O leite nas mãos das pessoas” com outras histórias que constatam o avanço do controle corporativo, mas também as estratégias de resistência de todas e todos aqueles empenhados em empreender, consumir e apoiar uma produção de alimentos independente das grandes companhias. A maior parte dessas histórias provém do documento do GRAIN, “O grande roubo do leite. Como é que os ricos e poderosos roubam dos pobres uma fonte vital de nutrição e sustento”, www.grain.org

Leite sobre rodas no Quênia.  Antes dos anos 1990, a coleta e fomento da produção de leite no Quênia eram controlados por uma companhia estatal. Suas regulamentações evitavam que o leite popular e seus derivados lácteos entrassem nos enormes circuitos comerciais.

Como parte dos programas de ajuste estrutural impostos ao país pelos organismos multilaterais que concediam empréstimos, nos anos 1990 a companhia estatal foi privatizada, o que levou ao seu colapso. As processadoras privadas não quiseram recorrer ao circuito de leite popular e começaram a importar leite em pó.

Em 2001 a importação de leite em pó aumentou extraordinariamente. As pessoas se irritaram. O governo elevou as taxas alfandegárias de 25% para 60%, mas nem mesmo esse aumento fez com que a grandes companhias leiteiras recorressem à cadeia de abastecimento popular.

A cadeia leiteira popular mobilizou-se e assumiu a coleta e o abastecimento do leite local. Hoje, uma cadeia em nível nacional, formada por camponeses e vendedores em bicicleta proporciona entre 80 e 86% do leite que circula no país (45% da produção nacional vai para a própria subsistência). Cerca de 800 mil estabelecimentos camponeses ganham seu sustento através da cadeia leiteira popular do Quênia. Cerca de 350 mil pessoas são empregadas diretamente na coleta do leite, em seu transporte, processamento e venda. Produtores e consumidores beneficiam-se do sistema. Os produtores obtêm um preço pelo seu leite que é, na média, 22% mais alto do que o pago pelas grandes processadoras de laticínios. Os consumidores pagam por um litro de leite popular, no máximo, a metade do que custaria um litro das companhias leiteiras.

Em 2010, no meio da recente crise alimentar nacional, houve um pico de produção de leite. A produção ultrapassou a demanda das processadoras, que continuaram importando leite em pó a preços baixos nunca vistos. Os preços que as processadoras pagavam despencaram e os produtores comerciais que as abasteciam começaram a jogar fora seu leite e a sacrificar seus animais. Muitos quebraram, impossibilitados de pagar suas dívidas.

Durante todo o período, os preços dentro da cadeia leiteira popular mantiveram-se estáveis.

As companhias de laticínios, nacionais e estrangeiras, não gostam dessa concorrência da cadeia leiteira popular. O Quênia é um mercado leiteiro significativo, com potencial para exportação para outros países africanos. A cadeia leiteira popular está, consequentemente, sob constante ameaça, não só pelos tratados de comércio que poderiam abrir o país às exportações baratas de leite em pó, mas também pelas medidas encabeçadas pela indústria para demonizar esse leite como insalubre. Andrew M. Karanja, The dairy industry in Kenya: The post-liberalization agenda, 2003.

 

O “leite ruim” da União Europeia. Os laticínios são responsáveis por um quinto de toda a produção agrícola da União Europeia, e cerca de 20% da produção mundial de leite é consumida na União Europeia. Apesar disso, sua produção leiteira atravessa uma profunda crise.

O número de estabelecimentos leiteiros na União Europeia caiu 80% desde 1984, e os últimos anos foram particularmente brutais. Euskal Herria, a chamada Comunidade Autônoma do País Basco, na Espanha, por exemplo, perdeu 60% de seus estabelecimentos leiteiros entre 2002 e 2010. Os camponeses contestam as políticas da União Europeia que fizeram desabar os preços pagos pelo leite a níveis muito abaixo dos custos de produção.

As políticas leiteiras na União Europeia promovem um sistema de altas taxas alfandegárias, quotas de produção e subsídios. Antes, apoiavam os preços mas agora há um esquema de pagamentos diretos aos produtores. Supõe-se que os subsídios à exportação foram suspensos, mas a União Europeia pode reinstaurá-los. Esses subsídios vão principalmente para as grandes processadoras.

Organizações como a Via Campesina Europa sustentam que a União Europeia e seus estados membros manipulam as quotas visando que a oferta sempre exceda à demanda. Isso permite que as processadoras reduzam o preço na porta do tambo para abaixo do custo de produção, e que os laticínios europeus sejam vendidos a preços competitivos no mercado internacional. Os produtores sobrevivem com preços tão baixos unicamente porque recebem pagamentos diretos do governo que, em grande parte, beneficiam os estabelecimentos maiores. Na União Europeia, três quartos dos pagamentos diretos vão para um quarto dos estabelecimentos leiteiros. Coodenação Europeia da Via Campesina, “La réforme de la Po­litique Agricole Commune n’aura pas de légitimité sans plafonnement des paiements directs !”, 21 de março de 2011

 

De cooperativa a corporação. De todas as mercadorias agrícolas de exportação, os laticínios são os mais frágeis. Têm uma vida de armazenamento muito curta e requerem um manejo cuidadoso. O leite cru é muito ativo biologicamente e contém uma riqueza de organismos vivos, capazes de coisas assombrosas ou de grande nocividade, dependendo das circunstâncias.

A “delicadeza” do leite colocou os produtores de laticínios em uma posição difícil uma vez que em alguns países os produtores leiteiros, individualmente, não tinham a opção de reter seu leite para obter um preço melhor no mercado. Para aguentar, surgiram as cooperativas. As primeiras cooperativas organizaram-se no século 19, e se expandiram até se tornarem, em alguns países produtores, a forma dominante de coletar leite para as processadoras industriais.

Apesar de o movimento de cooperativas leiteiras ter surgido como resposta ao controle corporativo, muitas cooperativas de hoje tornaram-se grandes companhias leiteiras. O Grupo Lala, do México, por exemplo, estabeleceu-se nos anos 1940 como uma cooperativa de pequenos produtores familiares na região de La Laguna. A cooperativa cresceu quando foi introduzida uma legislação federal que proibiu a venda de leite não pasteurizado e um programa governamental que tentou consolidar distritos leiteiros especializados. Mas os pequenos produtores foram marginalizados desse crescimento. Hoje, a cooperativa é controlada por cerca de 150 estabelecimentos leiteiros muito grandes, que utilizam água de forma intensiva. Isso acarreta toda a sorte de problemas para as comunidades camponesas vizinhas. O Grupo Lala agora está crescendo rapidamente no estrangeiro. Em 2009, comprou a processadora de laticínios norte-americana National Dairy, o que a converteu na segunda maior companhia nos Estados Unidos e a quinta maior do mundo. Luis Hernández Navarro, La Jornada: “La Laguna: la nueva guerra por el agua” (12 de novembro de 2004), Manuel Poitras, “The concentration of capital and the in­troduction of biotechnology in La Laguna dairy farming”, Sociedades Rurales, Producción y Medio Ambiente, 1, 2000.

 

Produtos de leite para os “subgrupos”. No Paquistão, as crianças das cidades bebiam leite integral fresco, ao invés do leite em pó NIDO, da Nestlé. A companhia realizou uma pesquisa de mercado: “Apenas 4% das 21 milhões de crianças do Paquistão urbano consumiam produtos de leite NIDO, principalmente nas famílias mais abastadas”. Como havia altas taxas de deficiência de ferro entre as crianças paquistanesas (30%), a companhia entendeu que fortificando seu produto de leite em pó NIDO com ferro – e investindo grandes somas em anúncios de televisão e em campanhas educativas – poderia convencer as mamães pobres que NIDO era uma melhor opção para a saúde de suas crianças. Em 2009, ao lançar a nova campanha de marketing, as vendas dispararam e aumentaram 5 vezes nesse ano.

O NIDO, que a Nestlé anuncia como “leite nutritivo para as crianças em crescimento” é um dos produtos “Produtos Posicionados Popularmente” da companhia (PPP). Esses são produtos que a Nestlé fabrica para a metade do mundo que classifica como “pobre” ou de “poucos gastos com alimentos”. “Os PPP são direcionados à maior base de consumidores, de maior crescimento nos mercados emergentes e a subgrupos dos mercados desenvolvidos”, diz a Nestlé. A Danone, Kraft e General Mills (as três maiores companhias de laticínios) também têm uma série de produtos baratos direcionados aos pobres.

As companhias conseguem fazer com que esses produtos sejam baratos utilizando ingredientes comuns. Eles são projetados para afastar os bebês do peito materno e para afastar as pessoas do leite fresco (de fontes locais) e de seus produtos frescos, como o iogurte e o queijo. Procuram fazer com que as pessoas comprem laticínios elaborados com ingredientes industriais extraídos de diversos locais do mundo. Uma das práticas mais comuns é utilizar pó de leite desnatado ao invés de leite fresco, e depois reconstituí-lo com óleo de palma e outros óleos vegetais baratos. No México, onde o pó de leite desnatado dos Estados Unidos domina o mercado dos laticínios, o processo é conhecido como “filling” [enchimento], e assim se substitui até 80% da gordura do leite ao elaborar alguns produtos. Os países em desenvolvimento absorvem quase todas as importações de pó de leite desnatado.

É comum a Fonterra, que se apoia fortemente na reputação global que a Nova Zelândia tem por seu leite de qualidade, misturar seu leite em pó com óleo vegetal nos produtos que elabora para os consumidores pobres. “Se alguém pode fazer um produto que tenha uma parte substancial da nutrição de um pó de leite integral – mas com um custo básico diferente e um menor preço por unidade – há um mercado para isso”, diz Mark Wilson, diretor administrativo do braço da multinacional Fonterra no Oriente Médio e Ásia.

As grandes companhias gastam significativas somas de dinheiro para influenciar a demanda por seus produtos processados. No nordeste brasileiro, que é pobre, a Nestlé e a Danone contrataram empresas de relações públicas que as ajudam a buscar estratégias locais para atrair os consumidores pobres. A Nestlé tem um programa chamado “Até Você”, no qual os vendedores vão de porta em porta com caixas contendo biscoitos, laticínios, iogurte e sobremesas. Segundo a revista de publicidade, Adage, “Os vendedores estão treinados para atuar como consultores em nutrição que auxiliam os consumidores a entender o que é comer saudavelmente”. B. Kris Schulthies e Robert B. Schwart, “The US-Mexico Free Trade Agreement: Issues and implications for the US and Texas dairy industry”, TAMRC, agosto de 1991. Pro-poor Livestock Policy Institute, “Developing Countries and the Global Dairy Sector” Part I Global Overview, 2005. http://adage.com/article/global-news/brazil-s-northeast-land-laziness-china/228070/

 

O leite materno não tem comparação. Se uma multinacional desenvolvesse um alimento delicioso, balanceado, que funciona também como medicamento milagroso para curar e evitar doenças, com um custo de produção incrivelmente baixo, fornecido segundo as necessidades de quantidade e temperatura do consumidor, os inventores ganhariam prêmios Nobel, riqueza e prestígio. As mulheres têm produzido essa substância milagrosa, o leite materno, desde a aurora da humanidade, mas as fórmulas para bebês têm sido um êxito de marketing graças à destruição sistemática da amamentação, da alimentação através do peito materno.

Se todos os bebês que nascem no mundo recorressem desde o início à alimentação por mamadeiras, os lucros anuais das companhias que fabricam o leite substituto aumentaria em mais de 5 vezes. E é esse o mercado que elas estão atrás. Entre as famílias pobres do planeta (3/4 da humanidade) a aquisição de fórmulas, mamadeiras e esterilizadores drena um terço de seus ganhos. Na ilusão de nutrir o bebê, se empobrecem e desnutrem todos os demais. Quanto mais o leite artificial é aceito, mais crescem os lucros dos fabricantes. A fórmula para bebês é o alimento mais caro nas compras cotidianas de qualquer família, rica ou pobre. Na Nigéria, a quantidade diária sugerida custa mais de 2,5 salários mínimos por mês. Em Uganda chega a custar 9 salários mínimos. Defender e promover radicalmente o leite materno é tão importante como lutar contra as falsas soluções ao aquecimento global e pela defesa da agricultura camponesa. Gabrielle Palmer. The Politics of Breastfeeding. Pandora Press, UK, 2000.

 

 “Como vender saúde e bem estar”. Associar-se com o nutritivo é de suma importância para as grandes companhias leiteiras. Um terço dos 300 bilhões de dólares do mercado global de laticínios está classificado como de “saúde e bem estar”, segundo a Euromonitor International. A Danone controla 5,8 bilhões de dólares desse submercado, seguida pela japonesa Yakult (da qual a Danone é dona de 20%) com vendas de 3,2 bilhões de dólares. A Nestlé tem vendas de 2,8 bilhões.

Os mais importantes desses produtos “saudáveis” são os iogurtes “probióticos” que começaram no Japão, onde é divulgado como podendo ser consumido por pessoas com intolerância à lactose. Hoje, a publicidade dos iogurtes probióticos menciona uma suposta relação com todo o tipo de benefícios à saúde: desde reforçar a imunidade das crianças até diminuir o colesterol dos adultos. A Danone tem uma bebida de iogurte que se presume “nutre” a pele. Estima-se que o valor do mercado de probióticos chegue aos 32 bilhões de dólares até 2014, e a Ásia dará conta de um terço do mesmo.

Com os probióticos, a Danone conseguiu aumentar seus lucros na Ásia e nos estagnados mercados da Europa e América do Norte. A companhia tem o maior banco de bactérias lácticas do mundo, com 3.600 cepas, e aplica nos probióticos a metade dos 164 milhões de euros de seu orçamento de pesquisa e desenvolvimento. Todas os tipos de bactérias que identificam como de interesse são patenteadas imediatamente e lhes é atribuída uma marca.

Uma boa percentagem do orçamento que a Danone destina à pesquisa é investida em produzir informes científicos que respaldem seu marketing.

No entanto, as autoridades do Reino Unido forçaram a Danone a retirar um anúncio de Actimel, um de seus produtos mais vendidos, alegando que era enganoso afirmar que está “cientificamente provado [que este iogurte probiótico] ajuda a reforçar as defesas das crianças” – apesar da montanha de dados clínicos que a Danone apresentava.

Não muito depois, a Food Safety Authority (EFSA) negou-se a corroborar as afirmações da Danone que o Actimel podia reforçar a proteção do corpo contra doenças. E também não confirmou que o outro grande êxito de vendas, o iogurte Activia, facilitava a digestão das pessoas. Marketsand­markets: Global probiotics market worth US$32.6 billion by 2014

www.markestandmarkets.com. www.france24.com

 

A expansão para a China. A neozelandesa Fonterra sabe que a Nova Zelândia pode abastecer apenas uma parte da produção global de leite. Assim, para continuar crescendo, aposta em estimular a produção nos mercados importantes e a promover novos centros potenciais para a produção visando exportação, como o Chile. A estratégia da Fonterra começou na China, o maior mercado da companhia para suas exportações de leite em pó.

A Fonterra espera que o mercado de laticínios na China cresça de 25 bilhões para mais de 70 bilhões de dólares até o final da década, e sabe que apenas uma pequena fração desse aumento no consumo será abastecida pela Nova Zelândia. É por isso que a companhia investiu agressivamente para abastecer-se de leite em nível local. Sua primeira incursão foi investir 200 milhões na San Lu Dairy, da China, que deu à Fonterra 43% da propriedade e três assentos no conselho diretor. Entretanto, em 2008, a San Lu esteve implicada no escândalo da melamina que matou 6 bebês e causou enfermidade grave em outros 300 mil. A companhia se declarou em falência e a Fonterra teve que manobrar para se distanciar de qualquer responsabilidade.

Por irônico que pareça, a partir de então dispararam as importações de leite em pó neozelandês para a China, e a Fonterra utilizou o escândalo como desculpa para construir com rapidez seus próprios estabelecimentos de produção de leite no país, com os quais conseguiu colocar as mãos na produção local. A verdade é que a Fonterra já planejava construir suas granjas na China antes do escândalo.

Os estabelecimentos que a Fonterra constrói na China pouco têm a ver com os tipos de tambos que seus donos granjeiros operam na Nova Zelândia. Os plantéis chineses são cercados que alojam, em média, 94 vacas por hectare, mas há uma intensa oposição local a que se estabeleçam criatórios industriais no país, inclusive com densidades e tamanhos muito menores que os estabelecimentos da Fonterra na China.Due diligence urged over Fonterra’s Chinese ope­rations”, Federated Farmers, 4 de fevereiro de 2010

 

Dairy Partners of Americas (DPA) é uma empresa conjunta da Nestlé com a Fonterra que também cuida das operações leiteiras de ambas as companhias na Argentina, Colômbia e Equador. A DPA é a maior empresa de laticínios do Brasil e consegue seu leite de cerca de 6.500 produtores. Outros milhares abastecem a companhia através de cooperativas. Mas a Fonterra já dá passos para estabelecer seus próprios plantéis e, assim, abastecer a DPA. Em 2011, a companhia comprou 850 hectares de terras agricultáveis no estado de Goiás, onde vai construir um enorme estabelecimento “piloto” para pesquisar “se as ofertas internas de leite líquido são comercialmente viáveis”. Segundo Kevin Murray, diretor comercial das operações latino-americanas da Fonterra, esse primeiro estabelecimento abastecerá 1% dos 2 bilhões de litros de leite que a DPA coleta anualmente no Brasil. O estabelecimento leiteiro da Fonterra será apenas um dos vários plantéis que os investidores da Nova Zelândia, alguns deles produtores para a Fonterra, montaram recentemente no Brasil. Fonterra looking to milk Brazilian dairy market”, Just Food, 27 de maio de 2011; New Zealand Trade and Enterprise, “Dairy Market in Brazil”, outubro de 2010

 

Na Índia, a Fonterra associou-se com uma cooperativa de fertilizantes e de agricultores, a Indian Farmers Fertiliser Cooperative, e uma nova empresa chamada Global Dairy Health (GDH) para construir um estabelecimento piloto de 13 mil vacas em 65 hectares de terra numa Zona Econômica Especial, perto de Nellore, Andhra Pradesh. As companhias já trabalham num estudo de implantação, com planos de começar as operações em março de 2012. Se o acordo for adiante, as empresas verão a possibilidade de desenvolver mais granjas desse tipo na Índia.

A GDH é um exemplo da nova geração de donos de estabelecimentos leiteiros corporativos. Com o respaldo de uma das maiores plantações de chá na Índia, o grupo Apeejay, administrada por ex-executivos do Rabobank (o banco agrícola com sede na Holanda), a empresa tem a ambiciosa agenda de se apoderar de um grande segmento da produção leiteira na Índia – que é a maior do mundo. O plano da companhia é construir 100 estabelecimentos leiteiros de grande escala (de 3 mil vacas cada um) em toda a Índia num prazo de 10-15 anos. Começará com oito dessas granjas industriais, “para provar que esse tipo de estabelecimento leiteiro em grande escala funciona na Índia, para depois vender franquias do modelo”. O plantel leiteiro da Fonterra-Iffco será o primeiro da companhia, mas logo virão outros dois.

A GDH tem o respaldo do YES Bank, um banco agrícola da Índia criado pelo Rabobank. O planejamento e administração das granjas será feito por empresas e universidades holandesas.

É essa mescla de dinheiro de elites nacionais e estrangeiras o que faz desse impulso de mega-estabelecimentos leiteiros algo tão letal para a cadeia de leite popular. A GDH não tem inibição em dizer que seu objetivo é se apoderar dos mercados de laticínios no Sul que atualmente são abastecidos pelo “setor desorganizado”. O mesmo ocorre com a Cargill, a maior empresa do mundo em alimentos e agronegócios, que, através do fundo de cobertura do Black River Asset Management, tenta estabelecer “unidades produtoras de leite ao estilo ocidental”, na Ásia. Rich Gammill, diretor administrativo da Black River, disse que as granjas custarão uns 35 milhões de dólares cada uma e “manejarão de 5 mil a 8 mil vacas em áreas que dependeram, em grande parte, da produção leiteira dos camponeses”. Segundo Gammill: “Estamos muito acostumados com a eficiente produção alimentar dos Estados Unidos, mas na China e na Índia muitos dependem de seus agricultores camponeses. Não é um sistema ótimo nem eficiente e é insustentável no que se refere a atender a demanda. Presentación de GDH http://dairytechin­dia.in/seminar/GDH_Vision_and_Business_Plan.ppt

 

O mercado de laticínios está em expansão no Vietnã, mas os produtores leiteiros do país, 90% dos quais produzem sob contrato com as processadoras, se viram obrigados a reduzir seus rebanhos porque as processadoras os obrigam a aceitar preços abaixo dos custos de produção. Para atender à crescente demanda, as processadoras estão importando mais leite em pó e investem em seus próprios estabelecimentos. A TH Milk, uma companhia que há pouco foi estabelecida pela empresária vietnamita, Thai Huong (diretora de um dos bancos privados mais importantes do país), está em processo de construir o maior estabelecimento leiteiro da Ásia, no distrito Nghia Dan, no Vietnã. Já foram importadas 12 mil vacas da Nova Zelândia, e a cada 50 dias são embarcadas outras mil vacas. A companhia busca contar com 45 mil vacas e uma planta com capacidade de 500 milhões de litros anuais em 2012. Até 2017, seu objetivo é contar com 137 mil vacas em seu estabelecimento, que produzam 30% do consumo nacional de leite. A operação completa é instrumentada e administrada pela companhia israelense Afimilk. “Milking it in Vietnam”, Financial Times, 17 de março de 2011

 

No Egito, os maiores estabelecimentos leiteiros do país são de propriedade da Dina Farms, uma companhia de laticínios estabelecida por uma das empresas de capital privado, Citadel Capital. A granja está localizada no deserto, saindo da rodovia principal entre o Cairo e Alexandria. Conta com 7 mil vacas leiteiras. A Citadel quer aumentá-las para 12 mil, em 2012. Outros grandes investidores em laticínios também vão para o deserto. A Danone está em processo de construir uma mega-granja ali, sua segunda operação em grande escala depois de construir uma no deserto da Arábia Saudita. “Participar na organização de granjas enormes é a nova diretriz para nós”, diz o diretor da Danone, Jean Christophe Laugée. É também algo novo para a PepsiCo, que somente a poucos anos começou a mover-se fortemente em relação a laticínios. A subsidiária da PepsiCo, a International Dairy and Juice Ltd (IDJ), comprou a companhia egípcia Beyti, em 2010, absorvendo sua granja leiteira de grande escala. A PepsiCo tem a IDJ em conjunto com a gigante saudita dos laticínios, a Almarai, que opera seis mega estabelecimentos leiteiros no deserto saudita, e mantém 100 mil vacas, ou dois terços do gado leiteiro do país, bem como um estabelecimento na Jordânia, que agora é parte da IDJ.

Construir estabelecimentos leiteiros que requerem enormes quantidades de água no meio do deserto parece uma loucura. Ainda mais porque as granjas planejam extrair suas futuras necessidades de água do Nilo, cujo rápido esvaziamento já é uma fonte de tensões entre muitos dos países africanos que dependem dele para produzir alimentos. “Não me preocupa a escassez de água do Nilo”, diz o doutor Mohamed Waeed, um dos administradores da Dina Farms. “Sei que os etíopes querem usar mais água do Nilo. Mas não trabalho com eles. Estive lá, é um país tão montanhoso que não há espaço para uma agricultura extensiva. Não, o futuro da agricultura no norte da África está no deserto egípcio. Quem sabe, talvez nos convertamos nos grandes exportadores de laticínios e produtos agrícolas da região”. Global Investment House, “Almarai Company”, março de 2009. Jeroen Kuiper, “Egypt’s biggest dairy farm”, Disputed Waters, 17 de março de 2011

 

No Uruguai, o investimento estrangeiro no processamento de laticínios e nos “tambos” está em expansão. Entre os investidores incluem-se a Bom Gosto Brasil, a fornecedora de cadeias de fast food em nível global, Schreiber Foods dos Estados Unidos, a Cresud da Argentina, a Inslacsa do México, e o Grupo Maldonado da Venezuela, associado com a Fonterra e a Nestlé. A Bom Gosto e a Schreiber por si só administram uma quarta parte da produção de leite uruguaia. O advento do investimento estrangeiro tornou o Uruguai um dos principais centros de exportações de laticínios. Hoje são exportados dois terços dos laticínios uruguaios, principalmente para o Brasil, Venezuela e México.

Mas se a produção cresce, decrescem com rapidez o número de estabelecimentos e a área dedicada à produção leiteira, o que significa que ocorre uma maior concentração. Os estabelecimentos com mais de 500 hectares agora representam 5% de todos os estabelecimentos leiteiros e respondem por 28% da produção nacional de leite. Muitos desses grandes estabelecimentos estão nas mãos de investidores estrangeiros, como a New Zealand Farming Systems Uruguay, fundada por um grupo de investidores neozelandeses até ter sido absorvida pelo Olam Group, de Singapura, em 2011. As 31 granjas leiteiras da companhia produzem cerca de 70 milhões de litros por ano, mas ela planeja adquirir mais estabelecimentos para aumentar a produção para 300 milhões de litros nos próximos anos. Isso é cerca de 20% da produção total de leite do Uruguai. “Agazzi: um mala leche”, El Muerto Blog, 21 de junho de 2009.

 

O ataque frontal ao leite popular empreendido pelos Grandes do Setor de Laticínios está sempre envolto por palavras positivas manifestadas por seus promotores. É típico que o descrevam como uma modernização, como um caminho rumo a estabelecimentos mais produtivos e a laticínios mais seguros. As frases são repetidas por funcionários de governo e, inclusive, abraçadas por algumas ONGs e doadores que buscam oportunidades para “aliviar a pobreza” num mar de destruição de modos de vida e de sustento. Se não for cuidadosamente desconstruída, a retórica pode criar confusão e complicar a resistência das pessoas. A chave para o êxito do movimento do leite popular na Colômbia, por exemplo, foi confrontar com clareza os mitos que a indústria propõe.

Aurelio Suátez Montoya, diretor executivo da Associação Nacional pela Salvação Agropecuária, disse que a luta em favor do leite popular na Colômbia focou em três argumentos centrais para confrontar diretamente o governo e os Grandes do Setor de Laticínios em suas alegações que o livre comércio e a reconversão ao “setor formal” aumentariam a produção leiteira, gerariam empregos e proporcionariam leite mais barato e sadio. Os três argumentos são os seguintes:

1.            Realismo. O sistema do leite popular (a chamada “cadeia leiteira popular”) abastece 83% do leite no país, o que faz a Colômbia autossuficiente em laticínios. As grandes companhias leiteiras não têm e não terão a capacidade de coletar e processar a maior parte dessa produção leiteira, e, portanto, dependerão das importações. Se for deslocada a cadeia leiteira popular, a produção leiteira nacional cairá e o país deixará de ser autossuficiente.

2.            Prática. A cadeia leiteira popular proporciona meios de sustento a milhões de colombianos, aos camponeses produtores, aos vendedores e aos pequenos processadores de laticínios. Esses modos de vida e sustento não podem ser substituídos pelas grandes processadoras. O leite popular proporciona leite fresco a um preço acessível para milhões de famílias colombianas pobres que não podem pagar o leite mais caro processado pelas grandes companhias de laticínios. O leite popular é vendido por cerca de 55 centavos de dólar por litro e o leite pasteurizado dos supermercados é vendido por 1,40 dólar por litro.

3.            Não é ruim. A cadeia leiteira popular proporciona às pessoas um leite seguro, sadio, fresco e nutritivo. A confiança que esse sistema tem na cultura popular de ferver com fogo forte durante dez minutos antes de consumi-lo assegura sua inocuidade. Não há evidência de que a cadeia leiteira popular facilite surtos de doenças ou promova a adulteração do leite. Aurelio Álvarez, comunicación personal con Devlin Kuyek, de GRAIN.

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