Hortas urbanas e a crise alimentar global

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Autor(a): Rob Sawers
Fecha: 20 diciembre 2011
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Rob Sawers | 20 diciembre 2011 | Biodiversidade - Oct 2011

Rob Sawers, São Paulo, Brasil. No mundo todo sobem os preços dos alimentos básicos. A FAO admite, abertamente, uma “crise alimentar global”. Há fortes evidências de que os preços dos alimentos são um dos fatores críticos de desassossego político por todo o mundo. As causas dessa crise são variadas e incluem o clima errático e os altos preços do petróleo. Sem dúvida, como em épocas anteriores de fome e escassez de alimentos, a crise alimentar não é só o resultado de fenômenos naturais, mas é agravada pela avidez de lucrar com a miséria humana mediante a manipulação dos mercados. Hoje, os camponeses têm a capacidade de alimentar o mundo, mas para aqueles que controlam os criatórios industriais, os mercados de exportação e as cadeias de supermercados é mais conveniente forçar a alta dos preços ainda mais. O aumento dos lucros provocado pela mudança climática está ficando muito tentador para as empresas.

Enquanto os camponeses por todo o mundo sofrem os efeitos dessa ofensiva corporativa contra a agricultura tradicional, são os pobres urbanos os que sofrem os riscos mais agudos de desnutrição nessa crise alimentar. Sua alimentação e nutrição é completamente dependente da indústria alimentar, mas seus ganhos não sobem no ritmo suficiente para escapar da fome.

Está claro que necessitamos soluções alternativas. Para aqueles que enfrentam uma desnutrição iminente enquanto vêem como os preços sobem semana após semana, não dá mais para simplesmente esperarem calados que o governo ou o desenvolvimento dirigido pelo capitalismo chegue ao bairro. Em todo o continente americano, de Buenos Aires a Detroit, muitas comunidades reagiram proativamente a essa crise. Grupos comunitários em incontáveis cidades iniciaram hortas urbanas nos bairros pobres e oferecem uma alternativa nutricional para os que sobrevivem comendo em bancas de rua e sobras. Além disso, tornam possível o desenvolvimento de economias locais para comercializar seus produtos. Infelizmente, a única outra economia local para alguns desses bairros, como na Favela Sabopemba de São Paulo, é o tráfico de drogas. Sob esse aspecto, as hortas e os mercados não são apenas uma fonte de nutrição e de ganho, mas também podem estimular uma mentalidade alternativa que resista à desumanização do narcotráfico e à fatalista dependência ao desenvolvimento capitalista.

Os cultivos urbanos de hortaliças foram adotados pelas comunidades como resposta à inflação dos preços dos alimentos, mas o primeiro impulso à agricultura urbana em massa foi uma resposta de Cuba às carências de alimentos devidas ao “Período Especial” no início dos anos 1990. Com a caída do socialismo no leste europeu, Cuba ficou sem as importações subsidiadas de petróleo, sem agrotóxicos e sem fertilizantes. Da noite para o dia, as antes prósperas agroindústrias cubanas fecharam. A ilha não teve outra opção senão utilizar todo o seu espaço disponível para plantar hortaliças e alimentar a sua população. Em poucos anos, Cuba estava produzindo em suas hortas orgânicas tanto como o seu sistema agrícola industrializado dos anos 1980. A única diferença foi que os cubanos, então, passaram a comer alimentos muito mais saudáveis graças aos vegetais frescos. Além disso, essa transformação colocou os meios de produção nas mãos das comunidades, e não nas mãos das burocracias estatais. Em meados dos anos 1990, 60% de todos os produtos frescos consumidos em Havana eram plantados dentro dos limites da cidade.

Desde então, florescem por todo o continente as hortas urbanas, mas não porque haja carência de alimentos, mas sim pelo aumento da disfuncionalidade dos mercados alimentares.

Popularizado pelo documentário The Garden, de 2008, a horta da central sul de Los Angeles era a maior horta urbana de hortaliças dos Estados Unidos e produzia comida para milhares de moradores do centro da cidade. Promovida pela comunidade e por ONGs locais, a horta resistiu às pressões do governo da cidade e do proprietário ausente de um terreno abandonado. No final, a horta foi arrasada por tratores. A destruição da horta parecia ser um ato de raiva do proprietário, mas talvez a ideia de que os chicanos do centro da cidade resistissem à indústria agroalimentar corporativa era algo muito ameaçador para deixar passar.

Esse trágico exemplo de machismo corporativo não deve desanimar os pobres urbanos que procuram assumir o controle de sua segurança alimentar. Em muitos outros países, os governos começam a reconhecer os benefícios dos cultivos urbanos em nível popular e promovem esses projetos. O governo argentino e o equatoriano sancionaram projetos e, assim, iniciaram alguns projetos comunitários nas cidades de Buenos Aires e em Quito e, inclusive, do México e Detroit, para mencionar apenas alguns deles. Em São Paulo, a organização comunitária Cidades Sem Fome (CSF) desenvolveu um projeto de cultivo urbano que utiliza o espaço desperdiçado e não utilizado, dentro ou próximo dos bairros, com a finalidade de empreender uma produção orgânica de hortaliças. Na maioria dos casos, a CSF persuadiu os donos dos terrenos no sentido de que um terreno em uso comum plantado com hortaliças implica menos responsabilidade legal do que deixar o espaço vazio, que expõe a terra a ser utilizada como depósito de lixo ou que abre a possibilidade de ser invadida com habitações precárias. Com esse modelo de pedir emprestada a terra, a CSF desenvolveu uma cooperativa de cultivo orgânico de mais de vinte hortas espalhadas por uma das maiores cidades do mundo.

Os resultados das hortas urbanas são imediatos e óbvios para aqueles que de outra forma não teriam nenhum acesso a frutos e hortaliças frescas e, nem se fale, a produtos orgânicos, locais. O fundador da Cidades Sem Fome, Hans Dieter Temp, alerta aos iniciantes no plantio que comecem cultivando alfaces e rabanetes. A ideia é começar com plantas de rápido crescimento, propiciando que os cultivadores vejam o mais rápido possível os benefícios em sua dieta e em seus ganhos. Depois, incentivam-se as pessoas para que assumam uma variedade mais ampla de hortaliças, para obter uma maior variedade nutricional. As pessoas que trabalham com a CSF cultivam atualmente uma diversidade de produtos, incluindo diversas hortaliças locais, como o chuchu.

Um dos aspectos mais inspiradores desse movimento, e de fato de todo o potencial dos cultivos urbanos em geral, é que essas hortas começaram a transformar os bairros que sofrem de extrema pobreza, de desnutrição, de desemprego e das garras firmes das quadrilhas de traficantes. Na Favela Sabopemba, notória por sua pobreza, os jovens têm pouquíssimas oportunidades de conseguir emprego, e as tentações do narcotráfico são grandes. No caso das mulheres, ou estão desempregadas, ou trabalham como lavadeiras ou domésticas para famílias de classe média em outras partes da cidade.

Mas o poder do trabalho coletivo (mutirão) é forte, e os organizadores do movimento já vêem as melhorias na nutrição e na mentalidade das pessoas. Temp recorda o quão difícil era convencer as mulheres do bairro de que elas mesmas podiam fazer a diferença para elas e sua comunidade. O estranho foi que quando mostraram a elas a exuberante horta de um bairro nos arredores, já funcionando, as mulheres da Sabopemba a princípio ficaram paralisadas. O sentimento dessas mulheres parecia ser: “Como é possível nós fazermos algo tão bonito”? Mas as mulheres da Sabopemba uniram-se à CSF e o ato de cultivar coletivamente começou a desconstruir a mentalidade de desânimo. Essas mulheres deram às suas crianças e aos vizinhos algo muito especial nos bairros, a satisfação de serem capazes de conseguir algo em suas comunidades e em si mesmas. Temp acrescenta que quando a Sabopemba começou a cultivar, as conversas que ouvia enquanto trabalhavam eram principalmente rumores sobre o abuso do crack e os preços que diferentes traficantes cobravam. Agora, as mulheres trocam saberes de cultivo ou de cozinha enquanto trabalham. Apesar de uma evidência informal, o movimento considera que isso mostra uma virada dramática na mentalidade.

Entretanto, a mentalidade é só uma pequena parte do problema porque em São Paulo os supermercados estão longe das favelas e os preços são incrivelmente caros para os pobres. Uma mãe com bocas para alimentar e que trabalha lavando roupa para famílias de classe média no outro lado dessa mega-metrópole, pode ter que pegar vários ônibus para ir ao supermercado e voltar. Com esse tipo de transbordos épicos, um pé de alface ou algumas mangas maduras podem ser amassados ou murcharem até chegar em casa para preparar a comida. Ainda que esse tipo de problema possa soar grosseiramente mundano e sem relevância para as realidades da pobreza, muita gente na Favela Sabopemba apontou exatamente esse tipo de situações como parte dos obstáculos que enfrentam para conseguir uma boa alimentação. O que ocorre é que diante da perspectiva de chegar em casa com uma alface que quase não podem pagar, para a qual investem tempo e dinheiro em transporte, e que depois de tudo chega estragada, simplesmente escolhem o barato e confiável: arroz e massa, e não frutos e verduras nutritivos. 

O que é necessário, e a CSF espera ser parte dessa mudança, é um afastamento da agricultura industrial de grande escala e das cadeias de supermercados que distribuem seus produtos. No Brasil, e com certeza em todo o continente americano, as corporações gigantes controlam grande parte da produção agrícola dos países. O modelo corporativo industrial de agricultura se apoia em subsídios governamentais maciços, na especialização e na intensificação de cultivos, e utiliza maquinaria cara e agroquímicos. Contra esse Golias da produção, os pequenos posseiros e as unidades de produção familiares não têm muitas oportunidades de competir. As pequenas unidades de produção se endividam e quebram, e a garra dos gigantes corporativos da agricultura fica mais apertada.

Por sua vez, essas corporações do agronegócio, integradas verticalmente, confiam nos supermercados como mecanismo para aumentar seus lucros. Os supermercados podem ser a etapa na qual se representa o drama da exclusão social. Uma percentagem da população mundial (percentagem que cresce rapidamente), vê nos supermercados o acesso primário a alimentos frescos. Exibem para o consumidor uma variedade de bens, com marcas e pacotes que cultivam o reconhecimento das marcas e uma lealdade a elas. Nesses paraísos dos lucros das corporações, os que compram se dividem em linhas de classe baseadas no que cada um pode pagar e nas mercadorias que sobreviverão à longa viagem de volta para casa. Os ricos e os pobres talvez comprem nas mesmas lojas, mas saem delas com compras muito diferentes.

A divisão é igualmente marcante entre classes de produtores. Muitos camponeses em pequena escala simplesmente não podem se manter no negócio vendendo seus produtos do campo aos supermercados porque estes pagam preços de atacado que se tornam baixíssimos artificialmente. Por exemplo, a cadeia francesa de supermercados Carrefour é muito poderosa no Brasil, pois conta com 50 milhões de consumidores em umas quinhentas lojas no sul do Brasil.1 Na época em que foram realizadas as entrevistas para este texto, o Carrefour em São Paulo pagava aos agricultores seis centavos de real (R$ 0,06) por pé de alface. Para quem tem centenas de milhares de hectares, e milhões ou bilhões para gastar com maquinaria sofisticada e químicos, é possível obter lucro de alfaces vendidas a seis centavos de real. Mas para os camponeses com pequenas áreas que tentem competir, já não é rentável cultivar. Acabam indo para as cidades, para lavar roupas, ou vender drogas nas ruas; e a tendência à deterioração rural continua.

Para confrontar ambos os lados desse desafio que se apresenta aos moradores dos bairros, a CSF cultiva hortas que ao serem suficientemente grandes podem ser economicamente produtivas, e não estão unicamente tocando na linha de vida nutricional. Produzir excedentes conduz ao desenvolvimento de mercados locais para frutos e verduras orgânicos nos bairros que nunca antes tiveram tais luxos. Estess mercados são, de fato, um dos aspectos mais excitantes do modelo de Cidades Sem Fome, porque começam a desmoronar o apartheid nutricional que divide São Paulo entre ricos e pobres. Além da satisfação e da auto-estima que provêm dos vizinhos trabalharem juntos no mutirão desses mercados, os baixos preços dão acesso a produtos agrícolas frescos a uma faixa muito mais ampla da população. Um pé de alface nesses mercados é vendido por R$ 1,00; comparado com o Carrefour, é um preço muito menor para o consumidor e é um ganho muito mais alto para o produtor.

Os preços nesses mercados “camponeses” locais de hortaliças frescas são menores do que nos supermercados, entre outras coisas devido à ausência de intermediários. Como salientamos antes, no exemplo de como o Carrefour fixa o preço da alface, os supermercados corporativos exigem uma diferença enorme entre o preço de atacado e o de varejo para os produtos frescos, com a finalidade de sustentar os custos indiretos das corporações internacionais inteiras. Do pessoal dos supermercados para cima, passando pelos engenheiros e mecânicos, e os escritórios administrativos, as equipes legais, os assessores financeiros, os executivos, os membros do conselho e direção; toda a conta, até a última linha, é paga pelos agricultores e consumidores. Mas por que os camponeses que lutam e os sem posse que moram nos bairros são forçados a fazer parte de uma estrutura injusta e tão sobrecarregada? Por que as mulheres da Favela Sabopemba têm que contribuir com os pacotes de benefícios da direção do Carrefour?

Pensado como modelo de desenvolvimento ou como solução à crise alimentar global, alguns alegarão que o cultivo de hortaliças e os mercados locais são “pouca coisa”, um simples curativo na ferida ocasionada por um sistema de produção alimentar que está fugindo do controle. Talvez seja assim, e as soluções de longo prazo não estejam nas cidades que consomem, mas sim no campo que produz. Os camponeses e os pequenos proprietários por todo o mundo clamam a favor de uma reforma agrária enquanto a máquina de produzir alimentos de modo intensivo, baseada no capital, estraga mais terra e torna obsoletos mais mercados locais. Mas à medida que a luta dos camponeses segue adiante, talvez invisível ou alheia para a população urbana do mundo, os pobres marginalizados nas cidades e bairros não podem continuar esperando que se cumpram as promessas do desenvolvimento capitalista. Quando os preços dos alimentos chegam a alturas ridículas, pensar que o capitalismo lhes oferecerá frutos é uma fantasia que já não podem se dar ao luxo de pagar.

Um dos principais desafios desse movimento autônomo, que busca se livrar da agricultura industrial e da fome urbana, é encontrar um método de distribuição dos produtos agrícolas que passe ao largo dos supermercados e de todos os problemas que geram. É por isso que os mercados de hortaliças orgânicas nas favelas, que a Cidades Sem Fome promove, são tão importantes. Não é só porque colocam hortas e produtos orgânicos diretamente nas mãos daqueles que mais desesperadamente os necessitam; desempenham um papel de respaldo a esse valente distanciamento do sistema que destrói economias, habitats, e famílias.

 

1 Reardon, Thomas. et al. “Supermarkets in Africa, Asia, and Latin America.” American Journal of Agricultural Economics. V.85. No.5 (2003) 1144.

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