Alimentos e mudança climática: o elo esquecido

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Autor(a): GRAIN
Fecha: 20 diciembre 2011
Traducciones: Español
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GRAIN | 20 diciembre 2011 | Biodiversidade - Oct 2011

Os alimentos são um promotor chave da mudança climática. O processo industrial desde a produção dos alimentos até que sejam servidos em nossa mesa provoca cerca da metade das emissões de gás de efeito estufa geradas pelos humanos. Os fertilizantes químicos, a maquinaria pesada e outras tecnologias agrícolas dependentes do petróleo têm uma contribuição significativa. O impacto da indústria alimentar como um todo é, inclusive, maior: destroem-se florestas e savanas para produzir forragem para animais e geram-se dejetos que causam danos ao clima pelo excesso de empacotamento, processamento, refrigeração e transporte dos alimentos a grandes distâncias, apesar de milhões de pessoas continuarem com fome. Um novo sistema alimentar poderia ser um promotor chave de soluções para a mudança climática. Pessoas em todo o mundo participam de lutas para defender ou para criar novas formas de cultivar ou compartilhar alimentos que sejam muito mais saudáveis para suas comunidades e para o Planeta. Se forem tomadas medidas para reestruturar a agricultura e o sistema alimentar mundial em torno da soberania alimentar, da agricultura em pequena escala, da agroecologia e dos mercados locais, em algumas décadas poderíamos cortar pela metade as emissões globais de gases de efeito estufa. Não necessitamos de mercados de carbono nem de remendos tecnológicos. Necessitamos políticas acertadas e programas que erradiquem o atual sistema alimentar industrial criando, em seu lugar, um sistema que seja sustentável, equitativo e verdadeiramente produtivo.

Os alimentos e o clima: como montar o quebra-cabeças. A maioria dos estudos situa a contribuição das emissões agrícolas – as emissões produzidas nos campos cultivados – em algum ponto entre 11 e 15% das emissões globais1. No entanto, o que comumente não é dito, é que a maior parte dessas emissões são geradas pelas práticas de cultivo industrial que se baseiam em fertilizantes químicos (com nitrogênio), maquinaria pesada que funciona com derivados de petróleo, e em operações industriais de criação animal altamente concentradas que liberam metano para a atmosfera.

É freqüente, também, que as cifras da contribuição da agricultura não levem em conta as mudanças no uso do solo e o desmatamento, que são responsáveis por uma quinta parte das emissões de gases de efeito estufa.²

Em nível mundial, a agricultura invade as savanas, as áreas úmidas, os cerrados e as florestas, destruindo, ao arar, o solo de enormes superfícies. A expansão da fronteira agrícola é o contribuinte dominante do desmatamento, e é responsável por 70% a 90% do desmatamento global3. Isso significa que 15-18% das emissões globais de gases de efeito estufa são produzidas pela mudança no uso do solo e pelo desmatamento causado pela agricultura. Mas aqui, novamente, o sistema alimentar global e seu modelo de agricultura industrial são os principais culpados. O maior promotor desse desmatamento é a expansão das plantações industriais para a produção de commodities como a soja, a cana-de-açúcar, o dendê, o milho industrial, e a colza ou canola, assim como as lavouras de árvores para celulose. Desde 1990, a área plantada com as primeiras cinco commodities cresceu 38%4, apesar de a área plantada com alimentos básicos como o arroz ou o trigo ter diminuído.

As emissões procedentes da agricultura são responsáveis apenas por uma fração da contribuição geral do sistema alimentar com a mudança climática. É igualmente importante o que ocorre entre o momento em que os alimentos deixam o local de produção e o momento em que chegam a nossa mesa.

A comida é o maior setor econômico do mundo, e, de longe, implica em mais transações e emprega mais pessoas do que qualquer outro setor. Atualmente, os alimentos são preparados e distribuídos utilizando-se enormes quantidades de processamento, empacotamento e transporte, todos geradores de emissões de gases de efeito estufa, apesar de ser difícil obter dados de tais emissões. Os estudos que realizam na União Europeia concluem que cerca de um quarto do transporte total tem a ver com o transporte comercial de alimentos5. As cifras dispersas sobre o transporte, disponíveis em outros países, tais como no Quênia e no Zimbábue, indicam que a percentagem é ainda maior nos países “não industrializados”, onde a “produção de alimentos e sua entrega consomem entre 60 e 80% da energia total utilizada – incluída a humana, a animal e o combustível”6. Se o transporte é responsável por 25% das emissões globais de gases de efeito estufa, podemos utilizar os dados da União Europeia para calcular, de forma conservadora, que o transporte de alimentos é responsável por pelo menos 6% das emissões globais de gases de efeito estufa.

Em relação ao processamento e embalagens, novamente os dados disponíveis provêm principalmente da União Europeia, onde os estudos mostram que o processamento e a embalagem de alimentos são responsáveis por entre 10 e 11% das emissões de gases de efeito estufa7, enquanto a refrigeração da comida é responsável por 3-4%8 do total das emissões, e a venda a varejo de alimentos, por 2%9. Sendo conservadores com as cifras da União Europeia e extrapolando-se a partir das escassas cifras que existem de outros países, podemos calcular que pelo menos 5-6% das emissões são devidas ao transporte de alimentos, 8-10% ao processamento dos alimentos e embalagem dos mesmos, cerca de 1-2% à refrigeração e 1-2% à venda a varejo. Isso representa uma contribuição total entre 15 e 20% de emissões globais de gases de efeito estufa procedentes do conjunto dessas atividades.

Nem tudo o que o sistema alimentar produz é consumido. O sistema agroalimentar industrial descarta quase a metade de toda a comida que produz, em sua viagem dos estabelecimentos agrícolas aos comerciantes, aos processadores de comida, às mercearias e supermercados. Isso é suficiente para alimentar aos famintos do mundo por seis vezes10. Grande parte desse desperdício apodrece nas lixeiras e nos aterros sanitários, produzindo significativa quantidade de gases de efeito estufa. Diferentes estudos mostram que entre 3,5 e 4,5% das emissões globais de gases de efeito estufa provêm dos dejetos, e mais de 90% deles procedem de matéria originada na agricultura e processamento11. Isso significa que a decomposição dos dejetos orgânicos originados nos alimentos e na agricultura é responsável por 3-4% das emissões globais de gases de efeito estufa.

Somando as cifras acima citadas fica evidente que aí há um caso convincente: o sistema agroalimentar global atual, impulsionado por uma poderosa indústria alimentar transnacional, é responsável pela metade de todas as emissões de gases de efeito estufa produzidas por humanos; uma cifra entre um mínimo de 44% e um máximo de 57%.

Os alimentos e a mudança climática

O sistema agroalimentar industrial é responsável por 44-57% de todas as emissões globais de gases de efeito estufa

Processamento, transporte, embalagem e venda a varejo: 15-20%

Mudança no uso do solo e desmatamento: 15-18%

Produção agrícola: 11-15%

Desperdícios: 3-4%

Outras emissões não relacionadas com alimentos: 43-56%

Como mudar o sistema alimentar? É claro que não sairemos da crise climática se não transformarmos dramática e urgentemente o sistema alimentar global. E o lugar onde podemos começar é o solo.

Os alimentos começam e terminam no solo. Surgem do solo e no final retornam a ele para permitir que se produzam mais alimentos. Esse é o verdadeiro ciclo da vida. Mas nos últimos anos os humanos ignoraram esse ciclo vital. Estamos tirando do solo sem lhe dar devolução.

A industrialização da agricultura que começou na Europa e América do Norte, e que depois replicou a Revolução Verde em outras partes do mundo, baseou-se na suposição que a fertilidade do solo podia ser mantida e incrementada mediante o uso de fertilizantes químicos. Pouca atenção foi dada à importância da matéria orgânica no solo.

Uma ampla gama de trabalhos científicos indica que os solos cultivados perderam entre 30 e 75% de sua matéria orgânica durante o século 20, enquanto os solos que sustentam pastagens e pradarias perderam até 50%. Não há dúvida que essas perdas provocaram uma séria deterioração da fertilidade e produtividade dos solos, e contribuíram para piorar as secas e as inundações.

Tomando como base as cifras mais conservadoras que a literatura científica proporciona, a perda global acumulada de matéria orgânica do solo durante o último século pode ser calculada em 150-200 bilhões de toneladas12. Nem toda essa matéria orgânica terminou no ar como CO2 pois quantidades significativas foram arrastadas pela erosão para serem depositadas no fundo de rios e oceanos. Entretanto, pode ser calculado que foi liberado na atmosfera, pelo menos, de 200 a 300 bilhões de toneladas de CO2 devido à destruição global de matéria orgânica do solo. Em outras palavras, entre 25 e 40% do atual excesso de CO2 na atmosfera provém da destruição dos solos e de sua matéria orgânica.

Há boas notícias escondidas nessas cifras devastadoras. O CO2 que foi enviado à atmosfera ao se maltratar e desgastar os solos do mundo pode ser recolocado no solo. O que se necessita é uma mudança nas práticas agrícolas. Devemos nos afastar de práticas que destroem a matéria orgânica e nos aproximar das práticas que acumulam matéria orgânica no solo.

Sabemos que isso pode ser feito. Os camponeses de todo o mundo vêm abraçando essas práticas por gerações. As pesquisas do GRAIN mostraram que, se forem colocadas em funcionamento as políticas corretas e os incentivos corretos, em nível mundial, em cerca de 50 anos os conteúdos de matéria orgânica do solo podem ser restaurados aos níveis que tinham antes da agricultura industrial, o que, a grosso modo, é o mesmo tempo que a agricultura industrial levou para os exaurir13. O uso continuado dessas práticas permitiria eliminar de 24 a 30% das emissões globais atuais de gases de efeito estufa a cada ano.14

O novo cenário requereria uma mudança radial de enfoque, afastando-nos do atual modelo de agricultura industrial. Teria que ser dada ênfase no uso de técnicas tais como os sistemas de diversificação de cultivos, melhor integração entre a produção de cultivos e a produção animal, maior incorporação de árvores e de vegetação silvestre, entre outros. Tal incremento na diversidade poderia, então, aumentar a produção potencial, e a incorporação de matéria orgânica melhoraria progressivamente a fertilidade dos solos, criando círculos virtuosos de maior produtividade e maior disponibilidade de matéria orgânica. Aumentaria a capacidade do solo para reter água, o que significa que a chuva excessiva conduziria a inundações e secas menores e menos intensas. A erosão do solo seria cada vez menos um problema. A acidez e a alcalinidade do solo reduzir-se-iam, reduzindo e eliminando a toxicidade que se tornou um problema importante nos solos tropicais e áridos. Além disso, uma maior atividade biológica do solo protegeria as plantas contra as pragas e as doenças. Cada um desses efeitos implica em maior produtividade e, consequentemente, mais matéria orgânica disponível nos solos, o que tornaria possível, com o passar dos anos, objetivos mais altos em relação a uma incorporação de matéria orgânica no solo. No processo, mais comida seria produzida.

Para conseguir isto, é necessário trabalhar a partir das habilidades e da experiência acumulada pelos camponeses em pequena escala do mundo, ao invés de minar sua vida, tirar suas terras e expulsá-los de seus territórios, como ocorre hoje.

Uma guinada global rumo a uma agricultura que acumula matéria orgânica no solo nos colocaria, também, no caminho de cortar algumas das principais fontes de gases de efeito estufa que provêm do sistema alimentar.

Há outras três guinadas que se reforçam mutuamente e que é necessário que ocorram no sistema alimentar para que possamos enfrentar sua contribuição global à mudança climática: a primeira é uma guinada para os mercados locais, a circuitos mais curtos na distribuição dos alimentos, o que nos permitiria reduzir o transporte e a necessidade de embalagem, processamento e refrigeração. A segunda, uma reintegração de cultivos e da produção animal, que reduziria o transporte, o uso de fertilizantes químicos e a produção de emissões de metano e óxido nitroso gerados pelos grandes plantéis industriais de carne e laticínios. A terceira, frear o desmatamento, o que exigiria uma reforma agrária genuína e reverter a expansão das plantações de monocultivo para a produção de agrocombustíveis e forragens.

Se o mundo assumisse seriamente essas quatro mudanças e as colocasse em ação, seria possível reduzir, em algumas décadas, a metade das emissões globais de gases de efeito estufa e, no processo, empreender o longo caminho para a solução das outras crises que afetam o planeta, como a pobreza e a fome. Não há obstáculos técnicos que nos impeçam – nas mãos do campesinato do mundo estão os saberes, a experiência e as habilidades necessárias, e a partir daí podemos iniciar. Os únicos obstáculos são políticos e é aí que devemos focar nossos esforços.

 

Para aprofundar

Seedling, número especial sobre alimentação e mudança climática, outubro de 2009.

http://www.grain.org/article/categories/16

Biodiversidad, sustento y culturas 62, outubro de 2009 http://www.grain.org/article/categories/92

La agricultura campesina puede enfriar la tierra. Uma apresentação em powerpoint do GRAIN.

http://www.grain.org/e/4170

Crisis climática, compêndio especial de Biodiversidad, sustento y culturas, abril de 2010

http://www.grain.org/article/categories/218

The food and climate connection, um vídeo de Whyhunger.

http://www.grain.org/bulletin_board/entries/4243

 

1 O IPCC diz 10-12%, a OCDE diz 14% e o WRI diz 14,9%. Ver: IPCC, Climate Change 2007: Mitigation of Climate Change. Chapter 8: Agriculture, http://tinyurl.com/ms4mzb - Wilfird Legg e Hsin Huang. OECD Trade and Agriculture Directorate, Climate change and agriculture, http://tinyurl.com/5uehf8k

2  Ver WRI, World GHG Emissions Flow Chart, http://tinyurl.com/2fmebe y IPCC, 2004. Climate Change 2001: Working Group I: 3.4.2 Consequences of Land use Change. http://tinyurl.com/6duxqy

3  Ver FAO Advisory Committee on Paper and Wood Products – Sessão 49 – Bakubung, África do Sul, 10 de junho de 2008; e M. Kanninen et al., “Do trees grow on Money? Forest Perspective 4, CIFOR, Jakarta, 2007.

4 GRAIN, “Global Agribusiness: two decades of plunder”, Seedling, julho de 2010.

5 Eurostat. From farm to fork - a statistical journey along the EU’s food chain - Issue number 27/2011 http://tinyurl.com/656tchm and http://tinyurl.com/6k9jsc3

6 FAO. Stephen Karekezi e Michael Lazarus, Future energy requirements for Africa’s agriculture. Capítulos 2, 3 e 4. http://tinyurl.com/3n47gyy

7 Para a UE, ver Viktoria Bolla, Velina Pendolovska, Driving forces behind EU-27 greenhouse gas emissions over the decade 1999-2008. Statistics in focus 10/2011. http://tinyurl.com/6bhesog

8 Tara Garnett e Tim Jackson, Food Climate Research Network, Centre for Environmental Strategy, University of Surrey “Frost Bitten: an exploration of refrigeration dependence in the UK food chain and its implications for climate policy”, http://tinyurl.com/3h2rqln

9 S.A. Tassou, Y. Ge, A. Hadawey, D. Marriott. “Energy consumption and conservation in food retailing”. Applied Thermal Engineering 31 (2011) 147-156 e Kumar Venkat. CleanMetrics Corp. The Climate Change Impact of US Food Waste,CleanMetrics Technical Brief. http://tinyurl.com/3rcevo8 e Ioannis Bakas, Copenhagen Resource Institute (CRI). Food and Greenhouse Gas (GHG) Emissions. http://tinyurl.com/426s9as

10 Tristram Stuart, Waste: Uncovering the Global Food Scandal, Penguin, 2009, http://tinyurl.com/m3dxc9

11  Jean Bogner, et. al. Mitigation of global greenhouse gas emissions from waste: conclusions and strategies from the IPCC. Fourth Assessment Report. Working Group III (Mitigation) http://tinyurl.com/3cu9pmz

12 As cifras utilizadas para o cálculo foram: a) uma perda média de 4,5-6 kg de matéria orgânica do solo por metro quadrado de terra arável (MOS/m²) e 2-3 kg de MOS/m² de terra agrícola em pradarias e sem cultivar; b) uma média de profundidade do solo de 30 cm, com uma média de densidade do solo de 1 gr/cm³; c) 5 bilhões de hectares de terra agrícola em nível mundial; 1,8 bilhões de terra arável segundo dados publicados pela FAO; d) uma proporção de 1,46 kg de CO2 para cada quilo de MOS destruído.

13 Ver GRAIN, “Cuidar el suelo”, Biodiversidad, sustento y culturas, número 62, outubro de 2009, http://tinyurl.com/3rclbcy

A conclusão baseia-se na suposição de que a incorporação da matéria orgânica chegaria a uma taxa média anual global entre 3,5 e 5 toneladas por hectare de terra agrícola. Para cálculos mais detalhados ver GRAIN, “Cuidar el Suelo”, op. Cit., tabela 2.

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