Crise e subsistência. O medo não passará (ou para que aquilo que dizem que “tem que passar” não passe)

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Author: Jean Robert
Date: 17 January 2014
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Jean Robert | 17 January 2014 | Biodiversidade 78 / 2013-10

Ter medo do medo. De duas coisas, uma: a crise, ou é uma incitação ao medo — ao pânico que o capitalis­mo requer para efetuar os reajustes estruturais sem os quais não conseguirá sobreviver —, ou é uma oportunidade de chegar ao fundo do poço.

Chegar ao fundo do poço quer dizer recuperar dolorosamente e às vezes com alegria a percepção do concreto: não só de quão duro se torna ganhar a vida, mas também do solo e dos outros elementos, e da possibilidade, sempre aberta, da camaradagem. É limpar o olhar de miragens e talvez do excesso de abstrações, mas também recordar que, em épocas não muito distantes, como ainda em muitíssimos lugares do campo mexicano, as pessoas extraíam diretamente da terra, das águas e do ar a maior parte do que é necessário para sua subsistência. Não sozinhas, mas em solidariedade.

Acabo de escrever uma palavra muito desprestigiada pelos economistas: subsistência. Numa primeira abordagem, levar uma vida de subsistência é cultivar o que você come e comer o que é cultivado. Onde há solo, água e sol, e, penso eu, boa convivência, isso sempre é possível, seja no chão mesmo ou em vasos. Não requer diplomas nem de escola primária nem de faculdade, e muito menos de doutorado, mas exige saberes precisos, apropriados ao lugar, adequados ao seu clima e em harmonia com a cultura particular a esse solo, a essa água e a esse sol: chamemo-los de saberes de subsistência

Mas não dizem de quem cultiva o que come e come o que cultiva: “o pobre, mal consegue levar uma vida de subsistência”?

Os defensores mais ferrenhos desse desprezo são os economistas. Por acaso os economistas entendem o que desprezam? Existe, para eles, um “centro” da economia que possa ser tocado, uma base concreta que a relacio­ne com atividades que nos permitam comer, vestir e nos abrigar? A resposta dos economistas é: a economia é um jogo que deveria permitir a todos ganhar o dinheiro necessário para obter a “cesta básica”, a poucos levar uma vida cheia de luxos e a pouquí­ssimos ostentar uma riqueza que nenhuma sociedade do passado poderia sequer sonhar. Talvez seja injusto, talvez os economistas vejam a economia como uma loteria, mas dizem: “sejamos realis­tas: há um nível ótimo de injustiça, no sentido de que, se houvesse menos injustiça, a situação dos cidadãos mais pobres seria pior do que é sob o pressuposto ótimo de injustiça”. Isso dizem os economistas, ou diziam até o colapso de suas ilusões, entre o outono de 2007 e o outono de 2008.

Há dois argumentos que é impor­tante diferenciar. O primeiro diz: sim; a economia é injusta, mas um pouco de injustiça serve para incrementar a produção de tal maneira que algo da extrema riqueza dos mais ricos escoará até os pobres. Isso ainda está para ser visto.

O segundo argumento é, talvez, mais importante, mas menos evidente: na sociedade econômica moderna, geralmente alguém produz uma coisa para obter outra. Quero uma cesta cheia para minha família no final da quinzena, mas, para obtê-la, preencho papéis em um escritório ou trabalho numa fábrica de armas ou de charutos. Em outras palavras: só obtenho a cesta da minha família fazendo rodeios. Até mais que a injustiça, a o rodeio de produção caracteriza a economia moderna. An­tes do período fatídico de quebra de bancos e saqueio de pequenos investidores, tanto a injustiça inerente como o aumento dos rodeios se justificam com o argumento de que, ao crescer a pilha de dinheiro, finalmente, haverá para todos.

Ápices de riqueza junto a abismos de miséria. Mesmo os mais cegos entre os economistas começam a ver que a economia é uma máquina para produzir níveis incríveis de riqueza junto a abismos de miséria. Essa frase precisa de explicações. É preciso dizer que a miséria não é a pobreza: his­toricamente, é o seu oposto. A miséria moderna difere muito da pobreza tradicional. Ela resulta de negar a po­breza e sua cultura de mutualidade, e de persegui-la. Além disso, a economia for­mal, a que é ensinada nas universi­dades e servida cada vez mais com molho matemático, é uma cegueira seletiva adquirida: o economista que se atre­vesse a deixar de lado o viés exigido por seu ofício deixaria subitamente de ser economista, como ocorreu com meu amigo Jean-Pierre Dupuy, que, à força de investigar os fundamentos epistemológicos de sua ciência, a economia ma­temática, descobriu que suas fórmulas encobrem situações que mais se parecem com a violência dos sacrifícios humanos do que com levar em consideração todos os “pormenores pertinentes”. Deixou de ser economista e virou filósofo.

Imagino que os historiadores da economia vão se surpreender porque os economistas de antes da quebra de 2007-2008 não viam o que os fundadores da tradição liberal — os primeiros "economistas" no sentido moderno — viam com toda clareza. É que esses pioneiros da economia moderna não se consideravam economistas profissionais no sentido atual, mas sim pensadores gerais, às vezes filósofos — como Burke —, conhecedores dos sentimentos humanos — como Smith —, homens políticos — como Townsend —, ou empresários capazes de tirar proveito até das prisões — como Bentham. A frase que dá coceira em meus delicados amigos econo­mistas quando a pronuncio diante deles não teria chocado nem a Burke, nem a Townsend, nem a Bentham, mas talvez ao refinado Adam Smith, amigo de mo­ralistas e teólogos da grande tradição escocesa. Eis aqui esta frase:

A economia moderna é uma má­quina de produzir simultaneamen­te montões de riqueza nem sequer imagináveis por nossos antepassados e abismos de miséria que também não conheceram.

Podemos reformulá-la de várias maneiras, por exemplo: “A miséria acompanha a riqueza como a som­bra acompanha a luz”. “A economia oferece aos homens levá-los até a abundância enquanto fomenta as formas de escassez que serão a base de novas formas de miséria”. “Quanto mais riqueza uma sociedade ostenta, menos seus membros são capazes das relações de mutualidade que eram naturais aos pobres históricos e eram a base de suas redes de subsistência”. Ou, em pala­vras de John M’Farlane em suas reflexões sobre a pobreza na nação mais rica do século XVIII: “Não é nas nações estéreis e bárbaras que há mais miséria, senão nas mais prósperas e civilizadas das nações”[1].

Uma nação rica deve suprimir suas próprias relações de subsistência para que ronquem os motores de sua economia. Ao contrário da água que percola num coador com pó de café, a abundância dos ri­cos não penetra na sociedade até chegar aos pobres, como acreditava Adam Smith.

Bentham, o primeiro empresário que conseguiu obter lucros com a administração de um abrigo de pobres organizado como uma prisão modelo, nunca deu crédito à ingênua teoria smithiana da “percolação” das riquezas com a qual muitos economistas modernos ainda se admiram. Com um cinismo franco que diminuiria os votos de qualquer político contemporâneo, Bentham pôde afirmar que a tarefa do governo não consiste em aliviar a misé­ria, mas sim em aumentar as necessidades dos pobres para tornar o castigo da fome mais eficiente. Ele instou os ricos perdidos na benevolên­cia a reconhecer que “no mais elevado estado de prosperidade, a grande massa dos cidadãos provavelmente terá poucos recursos além do trabalho diário e estará sempre à beira da indigência”. O filósofo Edmund Bur­ke, autor de uma teoria do sublime, é abundante nisso, pois, somente a ameaça da miséria permite que os homens (cuja condição destina aos trabalhos servis) se atrevam aos perigos das guerras e à intempérie dos mares: “Salvo os apuros da pobreza, o que poderia obrigar as classes inferiores do povo a enfrentar todos os horrores que os esperam nos oceanos impetuosos e nos campos de batalha?”[2]. Burke ressalta que todos os caprichos de ajudar os pobres provêm de princípios absurdos que professam cum­prir o que, pela própria constituição do mundo, é impraticável: “Quando fingimos ter pena dessa gente que deve trabalhar — se não o mundo não poderia sobreviver — estamos jogando com a condição humana”[3]. Assim, explica ele, a verdadeira dificuldade não é ajudar os famintos, mas sim limitar a impetuosidade da benevolência dos ricos. A voz do reverendo Joseph Townsend está de acordo com a dessas autoridades filosóficas e econômicas: “A fome domará os animais mais ferozes, ensinará a decência e a civilidade, a obediência e a sujeição aos mais perversos. Em geral, só a fome pode estimular e incitar os pobres para fazê-los trabalhar”[4].

A Igreja pediu perdão sucessivamente aos judeus por tê-los perse­guido; a Giordano Bruno, por tê-lo queimado vivo; a Galileu, por tê-lo condenado; mas a economia nunca pediu perdão aos pobres. Aprendeu, simplesmente, a disfarçar seu cinismo estrutural atrás de uma máscara: “fazer O bem”, acrescentando: “ostensivamente e a partir das cúpulas do poder”.

O que se via com os fundadores da economia que seus seguidores preferem ignorar. O que chamamos de “crise” é um momento em que a loteria econômica já não tem prêmios de consolação para os mais pobres, e no qual a vantagem dos jogadores médios se reduz cada vez mais, enquanto a sorte dos astutos de ontem é apostada novamente na bolsa e produz, por um lado, novos pobres e, pelo outro, um novo tipo de riqueza que já não se pode avaliar em quantidades aritmeticamente identificáveis, mas sim em números que, para o homem comum, soam imaginários: “os zilionários” [pessoas com riqueza incalculável].  

Eis aqui um dado norte-americano sobre a disparidade da renda: O grupo dos 300 mil norte-americanos mais ricos ganha, em conjunto, tanto quanto os 150 milhões de seus concidadãos mais pobres. Em escala mundial, diz-se que os 500 indivíduos mais ricos do mundo ganham tanto quanto os 416 milhões mais pobres. Para encerrar esta dança dos números doidos, citemos um dado muito propagandeado do Banco Mundial, segundo o qual, hoje, os pobres representariam 56% da população mundial: 1 bilhão e 200 milhões que vivem com menos de dois dólares por dia, e 2 bilhões e 800 milhões com apenas um dólar ou menos[5]. Outra vez, a objetividade fria dos números oculta uma realidade mais inquietante: certamente, a disparidade da renda não para de crescer no mundo todo.

Porém, o que nem o Banco, nem a ONU, nem os economistas dizem, porque não têm conceitos para expressá-lo, é que, há meio século, a maioria dos homens ainda dispunha de saberes e de meios de subsistência que lhes possibilitavam viver dignamente na pobreza, enquanto hoje dependem cada vez mais de um mercado que os joga na miséria.

Por quê? Como? Prove-o, vão me intimar meus amigos economistas. Não sendo economista matemático, só posso responder com exemplos como este: Segundo um dos documentos apre­sentados na Conferência de Chefes de Estado em Joanesburgo, em 2002, o conjunto dos países industriais do Norte concede a seus agricultores um subsídio anual de 350 bilhões, ou seja, um bilhão por dia, para viabilizar a exportação de seus produtos agro­pecuários para os países pobres, tornando-os dependentes de alimentos cujo preço é negociado na bolsa. Essas práticas desleais [dumping] legalizadas pelos poderes econômico-políticos, sancionadas por “benfeitores” profissionais e pelas instituições que os empregam, contribuíram para destruir a base de subsistência dos pobres e continuam fazendo mais do que nunca.

E onde fica a esperança? Que ouvimos agora que os preços dos grãos e de outros alimentos básicos nos grandes mercados estão subindo depois de terem estado em baixa durante quase trinta anos? Ouvimos alguns dirigentes po­líticos do Sul anunciarem que, para que seus povos continuem comendo, baixarão ou suprimirão os impostos sobre os alimentos importados. Não devemos reconhecer aqui uma velha estratégia dos monopólios capitalistas? Quando a guerra dos preços tende a eliminar os competidores, para que proteger uma agricultura local não subsidiada cujos produtos são mais caros que os que são subvencionados e importados? Hoje, nos Estados Unidos, o protótipo dos países com agricultura subsidiada, até a maioria dos mais pobres não destina mais de 16% de sua renda à alimentação, enquanto, em muitos países do Sul, muitos lares pobres já gastam a metade de sua renda para comer, e alguns, 75%.  

O capitalismo parece se preparar para um grande “pobrecídio”. Mas essa perspectiva sinistra só poderá se tornar realidade na medida em que cedermos ao medo. Para que a “crise” possa permitir ao sistema econômico proceder aos ajustes estruturais sem os quais não sobreviverá, não pode ser o que meus amigos e eu queremos que seja: um estímulo à reflexão. Não. Tem que acabar em um pânico, se me perdoam o pleonasmo, geral. Só este pânico pode transformar a “crise” em crise, e só uma grande crise pode nos fazer engolir as novas iniquidades, disparidades e injustiças, as novas dependências e os novos saqueios que os mecânicos da máquina econômica mundial julgarão necessários para colocá-la de volta nos trilhos.

Não vamos permitir que se instale esse tipo de crise fomentada de cima. Vamos resistir ao pânico. Vamos manter abertos os horizontes da esperança. Como? Não sei, só se podem recons­truir esperanças realistas entre amigos, entre companheiros ou camaradas. Somente em um clima de confiança mútua será possível construir propostas concretas para além do colapso do que querem nos vender como “economia”. 


[1] Ver também: John M’Farlane, Enquiries concerning the Poor, 1772.

[2] Edmund Burke, Thoughts and Details on Scarcity, 1795.

[3] Ibid.

[4] Joseph Townsend, Dissertation on the Poor Laws, 1784.

[5] Recentemente, dois autores criticaram a definição das pessoas pelo que NÃO são, NÃO têm, NÃO ganham e a ignorância de suas verdadeiras capacidades. Ver Majid Rahnema e Jean Robert, La Puissance des pauvres, Arles : Actes Sud, 2008.

 

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