A verdadeira riqueza e a verdadeira pobreza no âmbito camponês andino equatoriano

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Author: Edwin Chancusig y Fernanda Vallejo (Fundación Heifer-Ecuador)
Date: 05 October 2011
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Edwin Chancusig y Fernanda Vallejo (Fundación Heifer-Ecuador) | 05 October 2011 | Biodiversidade - Jul 2011

A verdadeira riqueza e a verdadeira pobreza no âmbito camponês andino equatoriano

Edwin Chancusig e Fernanda Vallejo

(Fundação Heifer-Equador)

A agricultura moderna, apesar de suas pretensões e arrogância, não é senão um processo de ensaio e erro-acerto, como tantas outras formas que existem e existiram em nossa longa história humana. Tem, no entanto, dois defeitos gravíssimos: o primeiro é desconhecer o enorme acumulado de experiências testadas durante milhares de anos; o segundo é que não produz saberes, nem sequer conhecimentos, mas somente mercadorias que comercializa antes de avaliar os terríveis danos que seus produtos podem provocar.

Na região andina do Equador, os indígenas das comunidades optaram por afirmar seus saberes e recuperar os que estavam perdendo por força de tanta colonização espiritual. Neste processo, reúnem-se com frequência para compartilhar reflexões sobre o que vão conseguindo, como o estão fazendo, a que avós perguntaram para entender melhor o que se deve fazer e em que momento é o apropriado. Mas, além disso, propuseram-se a medir as mudanças que conseguem. Deste processo tão rico, de muitos comuneiros e comuneiras, queremos compartilhar o que Segundo Álvarez, da Comunidade Sablog Chico em Guamote-Chimborazo, Bernardo Guzñay da comuna Achullay San Agustín, e Piedad Guamán da comuna San Martín Alto, contaram e mediram em sua terra, desde que optaram por viver com dignidade e não abandonar sua chácara. São fragmentos de encontros com as três comunidades e de reflexões com membros da organização de segundo grau Jatun Aylly de Guamote (FOIJAG) que aglutina 16 comunidades, a partir do trabalho que a Heifer-Equador tem nessas regiões.

A responsabilidade dos que figuramos como autores, na realidade, foi a de sistematizar e dar forma final ao texto que apresentamos.

 

“Kevincito”: A chácara da família Álvarez. Sabloc Chico pertence ao Cantão Guamote, província de Chimborazo, nos Andes do Equador. Está localizada entre 3.300 e 3.500 metros acima do nível do mar. A temporada de chuvas inicia em setembro, intensifica-se em janeiro, fevereiro e dezembro, e diminui em maio e junho. Em julho começam os meses secos que se prolongam até agosto. Aqui vivem 120 famílias, e em sua maioria dedicam-se à agricultura e criação de animais, além do comércio e trabalho temporários em cidades.

Na chácara encontram-se cultivos de tubérculos como batatas, melloco, oca e mashua, cenoura branca, favas, quinua, milho, feijão, hortaliças, frutas, pastagens e forragens, plantados em terraços para evitar a erosão. Além disso, a família cria uma vaca, dois porcos, cinco carneiros, cuyes [roedor dos Andes] e galinhas. 

Até há alguns anos, Segundo havia renunciado a toda a tradição agrícola com que contava. Deixou de acreditar que a chácara é como a família, que os cultivos se casam para estarem bem, para não estarem sozinhos; também esqueceu que a “ashpa mamita” sente frio, que não se pode deixá-la descoberta e com fome. Assim, entre esquecimento e esquecimento, esqueceu-se de que o fruto de seu trabalho era primeiro para sua família, sua comunidade e sua terra.

Pouco a pouco se dedicou a plantar somente batatas, comprando a semente, a fertilidade e os “remédios” na loja de insumos. Isso permitiu a ele sair e trabalhar para outros, e com o que vendia e trabalhava fora, comprava a comida que já não produzia; cada vez passava mais tempo longe de sua família e de sua comuna. Segundo confessa que sofria muito, para conseguir dinheiro suficiente cuidava-se muito mal e sentia falta de seus filhos, sua esposa e sua comuna.

Durante uma assembleia comunal onde se falava de cuidados com a chácara, da força dos saberes próprios, do importante que era mantê-los para recuperar uma vida digna, descobriu que, felizmente, não havia perdido tudo. Que sua esposa continuava, ainda que fosse pouco, cuidando da chácara. Desde então, interessou-se, participou, aprendeu e experimentou. Agora compartilha seus êxitos com outras famílias.

Há 5 anos a chácara da família Álvarez tinha solo desprotegido e em franca erosão, havia apenas uma dezena de plantas, não tinha frutíferas nem ervas medicinais, quase tudo era ocupado com o cultivo de batata, ao qual se devia aplicar cada vez mais agroquímicos; as minhocas haviam desaparecido e não produzia matéria orgânica. Aos poucos foi enchendo sua chácara de árvores e arbustos nativos, o solo já não tem erosão e mantém umidade; as minhocas retornaram.

Como algumas pessoas acreditam que esse esforço é bonito, mas não muito realista “porque não dá para viver”, Segundo e sua esposa fizeram algumas contas:

1.        Seus animais lhes proporcionam 28 quintais de esterco por mês, cada quintal custa dois dólares, donde se economizam 56 dólares por mês.

2.        Já não produzem só batata comercial, têm 30 espécies diferentes de cultivos e, ainda, recuperaram 28 variedades de batatas. Antes colhiam 10 quintais de batata para cada quintal de semente; agora, colhem entre 20 e 25.

3.        As 700 plantas que agora têm em cercas e divisas produzem:

* 21 quintais de matéria orgânica por ano, ou seja, 42 dólares a mais de economia em adubos.

* 87,5 cargas de lenha, que lhes abastece por três meses e se vendem a 3 dólares cada uma, donde se economizam 263 dólares em lenha.

* Com a poda obtêm 10 mil estacas/ano, que se vendem a 50 centavos cada uma. Geralmente vendem a metade, donde obtêm 2.500 dólares por ano.

Contaram também o que lhes produz a venda de seus cuyes, suas frutas, sua quinua e suas plantas medicinais. Com isso custeiam os estudos de seus filhos e sua roupa.

Para esta família tudo isso é muito bom, mas há coisas melhores: estão juntos, estão sadios e bem alimentados, já não se expõem a produtos tóxicos; as geadas e as secas já não os devastam como antes, sua chácara é mais abrigada; as aves regressaram: 2 cores de beija-flores, pardais, pintassilgos, pombas, melros, que além de lhes alegrar a vida ajudam com as pragas. Recuperaram as sementes nativas, saberes, cultura, tradições, costumes, festas, rituais, sinais, comidas e receitas. Agora recebem visitas de comunidades vizinhas e de outras províncias, aqui se compartilham os saberes e conhecimentos.

Retornando ao caminho das sementes. A semente é o coração da vida na comunidade de Sablog Chico, por isso, quando ocorre a colheita e, posteriormente, a seleção, a semente é escolhida com muito cuidado e paciência. Escolhem-se os melhores exemplares para a safra seguinte (que sejam bonitas, sem larvas, sem ferimentos, de várias cores ou variedades e de tamanho médio).

De geração em geração a semente caminhou entre os comuneiros desse lugar. É herança dos avós, aqueles que encomendaram o cuidado e criação a seus filhos e netos. Assim, se mantém a semente ano após ano na família, e quando por alguma razão (secas, geadas, danos) se perdem, então se recorre aos vizinhos e comunidades das imediações como Sablog San Francisco e Sablog San José para intercambiar as sementes de vários cultivos.

Para dispor de sementes, no caso de querer incrementar a diversidade na chácara (especialmente nos plantios grandes), os comuneiros de Sablog Chico recorrem à feira semanal de Cajabamba aos domingos e à feira de Guamote nas quintas-feiras. Não faz muito tempo recorriam à paróquia Licto para trocar batatas por milho, e à feira de Tzalarón onde predomina a troca. A família de Segundo Álvarez pode intercambiar, compartilhar e receber sementes de cultivos nativos, com mais de dez famílias em comunidades de várias províncias da região interandina.

Formas de armazenamento das sementes. As sementes não são só recursos, são saberes e sabedorias, que foram colocados em movimento ao seu redor. Em Sablog Chico e outras comunidades, recuperar o caminho das sementes significou, também, recuperar os modos de escolhê-las, guardá-las e garantir o alimento. Agora é um saber novamente vivo.

A batata destinada para semente deve amadurecer na terra e sua casca não deve desgrudar. Para conservar boa a semente e fazê-la brotar, é exposta ao sol durante um dia, depois se faz um leito com palha de páramo ou “piguil” e se coloca sobre ele as batatas, cobre-se com cinza e novamente se coloca outra camada de palha. Somente dessa forma brotará em 8 ou 15 dias. Senão, apodrece, e não brota. Para esse procedimento escolhe-se um canto da casa onde haja muito pouco vento. O mesmo tratamento pode ser aplicado a outros tubérculos como oca, mashua ou melloco. Por outro lado, os grãos de milho, feijão, ervilha, devem ser secados ao sol e armazenados em sacos, para posteriormente serem colocados num lugar seco e seguro.

Compartilhar a semente, compartilhar a esperança. Assim como Segundo Álvarez, Bernardo Guzñay é um comuneiro que sempre está disposto a compartilhar seus saberes e é o que lhe deu força e argumentos em sua comunidade para promover uma forma de vida autônoma e soberana em Achullay San Agustín, Chimborazo.

Bernardo Guzñay recebeu de sua organização meio saco de sementes nativas de diferentes espécies e variedades locais, que foram estabelecidas em sua chácara e logo colocadas a circular na sua comunidade e outras comunidades. O compromisso inicial foi devolver o triplo do recebido e compartilhá-lo com outras famílias. A família Gusñay entregou o dobro (meio saco que recebeu e meio saco do comprometido), com a firme decisão de continuar compartilhando as sementes, mas também com a esperança de que uma mudança de vida é possível.

Recuperando a localidade da economia.

Piedad Guamán, por seu lado, além de haver mantido sua forma ancestral de criação da diversidade, decidiu participar da feira local de produtos, que a coloca em contato direto com consumidores de setores populares urbanos. Para levar à feira das quintas-feiras em Cantón Guamote, tosta e moe favas, milho, quinua, cevada e trigo no dia anterior, com a ajuda de sua filha maior e algumas vezes de seu esposo (Pedro Yupanqui). Piedad gosta de vender, e a cada semana vai conseguindo mais clientes, não precisa ficar gritando. Agora já tem clientes porque conhecem a qualidade e o sabor das farinhas e grãos. Comenta que obtém uns 242 dólares por semana, muitíssimo mais do que um salário mínimo vital.

Estas histórias são parte da comprovação de resultados e efeitos na vida das famílias, que compartilharam nas assembleias e com isso se foi gerando uma valorização e uma consciência, um sentido de segurança e autoestima, e cria uma necessidade de réplica e ampliação a novas famílias com vistas a conseguir o desenvolvimento de uma economia solidária sustentável na comunidade.

Agroquímicos na produção: onde está a verdadeira pobreza. Guamote apresenta os indicadores de pobreza mais dramáticos da Serra equatoriana. Durante décadas, tanto o Estado como as agências de cooperação realizaram uma cruzada de inserção dos indígenas no mercado e de incremento da produtividade para melhorar suas condições de vida. Os resultados foram menos do que modestos em relação aos indicadores, mas de dar calafrios em relação ao que implantaram no território. Refletindo sobre isso na organização, alguns comuneiros se puseram a fazer contas. Não são exatas, mas puderam dimensionar quanta riqueza saía de seus empobrecidos bolsos:

Em Guamote as famílias dispõem de uma média de 2,5 hectares de terra. Para a produção de batatas dedicam um hectare e utilizam, na medida de seus orçamentos, as recomendações do Instituto Nacional de Pesquisas Agropecuárias, que supõe um custo  médio de 636 dólares.

Cantón tem 150 comunidades. Considerando que cada comunidade tem uma média de 50 famílias estima-se que existem umas 7.500 famílias e, como cada família dedica um hectare para a produção de batatas, são 7.500 hectares exclusivos para essa produção. Segundo suas contas, em Guamote são gastos, anualmente, 4.770.300 dólares!

Companheiros da organização comentaram que o orçamento de investimento do governo local é de 300 mil dólares, de forma que o que se gasta em agroquímicos serviria para um orçamento de 15 anos.

Histórias que constroem resistência e subvertem a ordem. Dessa e de muitas outras formas as comunidades persistem e continuam na contramão de políticas de Estado, decisões alheias de desenvolvimento, extorsões e despojos permanentes. Assentam-se no cotidiano, tecem e retecem identidades, falam de como, para que e para quem se faz a agricultura, e com isso desenham modos de vida distintos.

No cotidiano alteram a ordem única de uma “agricultura” e de um modo de desenvolvimento. Insubordinam-se diante do isolamento, dos conhecimentos monopolizados, da individualização, da produção de mercadorias no lugar de alimento, da dependência energética, da dependência tecnológica; diante do trabalho e consumo alienados.

Ocorre a progressiva restituição das decisões que garantem a vida. O quê produzir, como produzir e para quem produzir. Organizam a agenda de luta e a reivindicação de camponeses e indígenas, e restituem a si mesmos um protagonismo histórico na transformação da realidade. Para isso não precisam mais do que olhar o que ocorre com suas famílias, as fazedoras da mudança.

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