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Author: Biodiversidade
Date: 05 October 2011
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Biodiversidade | 05 October 2011 | Biodiversidade - Jul 2011

Editorial

A foto inicial nos mostra a frente de uma unidade de produção agroecológica. Este tipo de estabelecimento tem aumentado à medida que as pessoas que cultivam a terra para comer (ou para vender seus produtos e assim poder comer) vão se dando conta do enorme engano que significou a Revolução Verde e seus pacotes de tecnologia alheia e inútil, pacotes que vinham acompanhados da arrogância do especialista: “o que vocês fizeram durante séculos não serve, têm que fazer o que nós dizemos por que fomos à universidade”.

O pior de tudo, neste exemplo, que ocorreu e ocorre em todo o mundo, é que os chamados especialistas na realidade não sabem bem que significado tem a tecnologia que recomendam, porque, por sua vez, foram doutrinados e ensinados assim, porque obedecem a normas estabelecidas pelos escritórios, nos programas e projetos, porque as diretrizes gerais do país assim o especificam a partir de padrões internacionais que foram definidos e decididos em outros lugares, em outras épocas. Estes padrões não são os dos camponeses, nem os tempos são, de forma alguma, os da ancestral e profunda agricultura, mas sim os tempos do livre comércio, da homologação, da certificação, da industrialização de como fazer e de conceitos – os tempos e os espaços da submissão.

E assim vai o mundo, obedecendo-se se sabe lá a quem, sabe-se lá por que critério, ideologia, arranjo ou tendência geral que no fundo serve muito bem às corporações que quiseram acabar com toda a agricultura independente, como todo o pensamento independente.

A unidade de produção mostrada na foto está localizada em Chiapas, lugar famoso no México porque ali, entremeada em povos, comunidades, baixadas, floresta e montanha, vive uma resistência expressada de muitas maneiras, incluído o repensarem seu trabalho de cultivadores, de cuidadores de sementes, solos, água: seu cuidado na limpeza dos alimentos que produzem para si mesmos e para outros. Muita gente nessas comunidades (da mesma forma que ocorre em outros lugares de nossa América, como na Guatemala, Costa Rica, Equador, Colômbia, Peru, Bolívia, Venezuela, Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai e Brasil) está consciente que há muitas maneiras de se obter alimentos saudáveis (sem agrotóxicos nem fertilizantes químicos, com sementes nativas), que não estão certificados pela instituição internacional da agricultura orgânica, através de uma agricultura camponesa tradicional e moderna, limpa, cuidadosa, independente.

Como tantas boas fotos, a foto acima (tirada pelo nosso assíduo colaborador, Jerónimo Palomares) pode ser lida de outras maneiras. Uma delas é ver a entrada da unidade de produção como um umbral aberto que temos que transpor para ter acesso a um futuro melhor que está ali, ao alcance, simbolizado por uma criança, como tantas, e por isso único: um futuro de justiça, dignidade e viabilidade da vida de todas e todos no mundo. Um futuro de viabilidade para o Planeta. Essa porta é nossa, esse futuro pode ser nosso, ainda que tudo nos diga que não, ainda que abertamente existam forças que nos neguem o acesso, que querem que entremos em outro futuro, ignóbil, servil, e que entremos, na realidade, em filas de dois, despojados, mas contentes, porque segundo as corporações e seus defensores há leis que nos protegerão despojando-nos da variabilidade, da diversidade, da probabilidade. Despojando-nos da infinita transformação da vida.

Assim é o futuro que acreditam que vão nos impor roubando-nos as sementes. Para isso existem as patentes, os certificados de obtentor, os registros, os catálogos, as definições mentirosas de algo indefinível porque sua transformação contínua o impede. Para isso também há toda a argumentação de proteger (sempre, no final, invoca-se a proteção como chantagem última e “intocável”) as variedades, seu material genético, através de estoques ou coleções ex situ, quer dizer fora do local onde são utilizadas, fora de onde são úteis, fora do fluxo que as produziu e as reforça, fora do fluxo do qual são parte fundamental porque sem essas sementes, sem esses cultivos, isso tudo já não é o mesmo.

Trata-se, então, de quem tem acesso a esses materiais, e, no final das contas, de quem tem o controle das sementes.

Essa avidez de controle é, finalmente, algo generalizado: não nos cansaremos de dizer que seu fim último é erradicar a produção independente de alimentos. Para isso é necessário privatizar todos os passos da cadeia alimentar da forma que for possível, começando com as sementes, através de leis, normas, padrões de qualidade, o que está levando ao absurdo de proporem, em todos os lugares, novas “leis de proteção ao milho”: leis que dizem colocar obstáculos ao plantio de milhos transgênicos (ou seja, à contaminação transgênica dos cultivos ancestrais); “obstáculos” que implicam o escrutínio de todo o universo da biodiversidade, nesse caso do milho. Assim, tais leis impõem a catalogação das sementes, sua homologação e a redução de seu universo ao registrado e certificado. Isso leva a que se imponham quotas (para não dizer preços) para sua utilização, que se imponham cadeados técnicos para sua utilização (por exemplo, a tecnologia Terminator recém revivida). O pior é que, no fundo, todos esses controles supõem uma criminalização do simples ato de possuir, guardar, custodiar, trocar e, claro, plantar as sementes livres que durante milênios nos cuidaram e nos serviram de talismãs para nosso futuro.

Pensando bem, esse menino da foto é, também, um símbolo do que são as sementes: um concentrado de futuro, um concentrado do sentido do que esse futuro pode conter e fazer florescer se nos organizamos para defender nossa existência e a vida que nos deu e nos dará mais vida. Olhando bem, esse menino, em que pese sua pouca idade, não está disperso, está focado e trabalha e investiga em seu entorno. Se isso é correto, a foto nos diz que devemos insistir naquilo que pensamos ser correto. Devemos insistir em nosso cuidado de milênios. Insistir em que, para defender o milho, o trigo, o arroz e todas as sementes e cultivos nativos em sua integridade – e não somente contra a contaminação genética – “é necessário restaurar ativamente os sistemas, processos e dinâmicas que criaram, e mantiveram em sua diversidade, muitíssimos cultivos e sementes, durante séculos, junto com os saberes que umas e outras pessoas, uns e outros coletivos foram intercambiando com carinho e respeito mútuo. Nenhum desses processos é possível sem a permanência dos povos indígenas e camponeses que os colocaram em marcha”, como afirmou um documento do GRAIN, de 2003.

Se isso é assim, devemos colocar um fim à neogrilagem legal de terras em nível local, nacional e mundial. Devemos defender nossos territórios como, talvez, a mais crucial de nossas tarefas porque sem um território forte é impossível o cuidado dos saberes e dos cultivos. Devemos defender o substrato da vida que implica na própria ideia do território, que não é somente a terra, mas, também, os saberes que o tornam possível. Se as sementes são as chaves do futuro, os territórios próprios são a própria fechadura que tais sementes precisam abrir.

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